Veja ilustre passageiro / Que belo tipo faceiro / Que você tem a seu lado /No entretanto,acredite / Quase morreu de bronquite / Salvou-o o Rum Creosotado. Falar dos bondes leva a memória a buscar verbos como esses do poeta Bastos Tigre colocados em anúncios na parte interna dos veículos. A origem do nome “bonde”, na verdade, veio da passagem adquirida pelos passageiros, como estava escrito pela Cia. Bond and Share, empresa inglesa que controlava a maioria dos bondes no Brasil.
Em Belo Horizonte os bondes elétricos (antes eram puxados por cavalos) foram instalados em 1902 e funcionaram até 1963, quando foram erradicadas as últimas linhas. Durante todo esse período os bondes foram o meio de transporte mais popular. Ao contrário de hoje em que os ônibus e os veículos próprios em parte revelam a classe social dos que o utilizam, os bondes eram democráticos e conduziam em seus bancos pessoas ricas, ou de hábitos modestos, patrões e empregados.
A pequena dimensão da cidade possibilitava os contatos pessoais e as amizades. Não era raro o motorista que conhecia os passageiros de tal modo que estes eram deixados em frente das suas respectivas residências, fosse ou não fosse “ponto” de descida.
O funcionamento do veículo era interessante: o condutor era chamado motorneiro e havia um trocador que se equilibrava nos balaústres, com as notas entre os dedos da mão, para cobrar dos passageiros. O bonde normalmente não fazia conversão. No final da linha, o motorneiro ia para o outro lado do veículo e os bancos eram virados ao contrário.
Trajetos
Algumas linhas ficaram famosas e são lembradas com carinho por muita gente. Como o bonde do Santo Antônio, que subia a Bahia, a Carangola e ia até a Rua Congonhas. Havia duas linhas, mas, chegando ao final do trajeto, era uma só de modo que, às vezes, o bonde que subia precisava ficar parado esperando o que descia do Santo Antônio.
O bonde da Serra subia pela Estêvão Pinto, que naquela época era chamada de Rua do Chumbo, nome que depois foi dado a outra rua do bairro. O ponto final era um pouco acima do Colégio Sacre Coeur de Marie. Naquela época, segunda metade da década de 1940, o colégio ficava em meio a um descampado, tendo a sua volta várias chácaras. Algumas ruas do bairro homenageiam pessoas que tinham a propriedade das chácaras como Dona Marianinha, Dona Cecília e Dona Salvadora.
Havia o bonde comum e o bonde especial. O segundo se destinava a levar as alunas ao Colégio Sacre Coeur e depois a buscá-las, fazendo o trajeto apenas duas vezes ao dia. O transporte das alunas era feito com a presença de uma irmã que ia em pé perto do primeiro banco da frente para vigiar as meninas. Assim também era “O Bonde do Santa Maria”, que ficou famoso na cidade e transportava os alunos daquele colégio, na época um dos mais conceituados da Capital. E esses bondes especiais, durante o trajeto, faziam a festa dos rapazes, dando vazão a vários flertes com as moças que passavam.
O bonde da Serra ia até a Praça Sete, onde fazia o retorno e voltava. Eles tinham o percurso em meio às arvores que ficavam dos dois lados da Avenida Afonso Pena. Em 1963, foi o fim da linha para os bondes em BH. As últimas linhas (Cachoeirinha, Gameleira, Bom Jesus, Horto, Padre Eustáquio e Cidade Ozanam) foram desativadas.
Trólebus
O sistema de transporte por trólebus foi inaugurado em Belo Horizonte em 1953 na administração do prefeito Américo René Giannetti. O da Serra utilizava a Rua do Ouro, que tinha mão dupla, para ir e voltar. A desativação do sistema ocorreu em 1963, alegando-se alto custo da operação e energia elétrica e também menor flexibilidade do que os ônibus movidos a diesel.
Os 55 trólebus, bem como alguns equipamentos de subestações e rede elétrica, foram comprados pela municipalidade de Recife, que em troca ofereceu ônibus novos a diesel ao sistema de Belo Horizonte.
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